TEMPUS FUGIT


E SE ...

 

E se você chegasse agora,

com seu sorriso claro

e me dissesse

  'Olha, foi brincadeira,

            estou aqui!'

E se eu ouvisse agora

a sua voz querida:

'Descansa, já passou,

         estou aqui'

E se eu sentisse agora

a sua mão na minha?

 

27.05.13



Escrito por Kli às 18h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


"A VIDA NÃO PARA NÃO"

Nos primeiros meses, acordava pela manhã e ficava surpresa por continuar viva e lúcida. Isso era inesperado. Nunca pensei que sobrevivesse à perda dele, senão por alguns dias ou talvez uns poucos meses. Mas continuo aqui, depois de dois anos, três meses e dez dias. Nesse tempo, nossa caçula teve sua festa de 15 anos, nossa mais velha engravidou e casou (nessa ordem). Em julho chega nosso primeiro neto, Eduardo. Nos intervalos desses acontecimentos importantes, reforma na casa, mudanças, adaptações, necessidades dos filhos a serem satisfeitas, (muitas) contas a serem pagas, inventário, burocracia, mente ocupada, tentando fugir da Dor. Que continua intacta, como no primeiro minuto. Convivo com ela diariamente, mas escondo bem. As pessoas cansam de ouvir. "Você está bem, não é?" - perguntam mas a única resposta que querem ouvir é sim. E é o que lhes dou: sim. E todos ficam tranquilos "ela está superando". 

Melhor assim.



Escrito por Kli às 15h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


DE REPENTE, 15!

 A filha não queria festa. Um ano de tentativas de convencimento, argumentos, estresse. Não queria e não queria e pronto. A data se aproximando, uma concessão: aceitava, contanto que fosse em casa. Fingi que concordava, pra ganhar tempo. Pensava na dificuldade de criar a estrutura para uma festa, apesar de já ter um bom espaço. E a iluminação, a ambientação? Gastaria muito mais do que se fizesse num buffet, que já tem toda a estrutura pra isso.

Enfim, a um mês exato da data do aniversário, aceitou que fosse feita a festa, num buffet. A corrida contra o tempo começou. Convites, decorador, o bolo, detalhes e mais detalhes pra escolher, organizar, conciliar. Pra começar, a cor. Pink? Lilás? Isso complicaria a decoração e a cor do vestido, que deveriam combinar. Lembrei então da célebre máxima do "menos é mais".  Seria tudo branco, com rosas vermelhas. Assim não corria o risco de errar, de ficar over. Seria sóbrio e bonito. E foi. Ela ficou linda no vestido da valsa, vermelho profundo, quase vinho,  com o brilho do tafetá de seda. Uma princesa. Na cabeça de todos, sem ser dito nem comentado, o pensamento de como o pai estaria orgulhoso de sua menina marcando essa etapa ainda tão importante de não mais menina e quase-mulher.

Valeu.



Escrito por Kli às 12h38
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

                                                         

 

 

FIM DE TARDE                               


Ó mar inútil de Tamandaré
tua beleza oprime e desconcerta
meu coração vazio.
Ondas, espuma, pedras, maresia,
vento do mar, o sol e a lua fria
existem em vão.
Pessoas cumprem seu momento,
crianças se afastam das mães
e entram no mar
ou catam conchas.
O garoto passa e colhe
no olhar das meninas,
infinitas possibilidades
de beijos que nunca terão.

Eu olho tudo
e não estou em nada
e em lugar nenhum.

(Praia de Tamandaré, março 2009)



Escrito por Kli às 23h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


copo-de-leite_1.jpg

 

 

ONTEM

 

Ontem teria sido mais um aniversário.

Eu teria feito um jantar,

Com bolo confeitado 

e frutas coloridas, naturais.

Os filhos trariam os netos e presentes.

Você teria rido satisfeito por ver todos juntos,

ficaria constrangido com o “parabéns pra você”

E as velinhas que teria que soprar.

Como em todos os outros anos,

Bateria palmas tímidas acompanhando o nosso coro

e até cantaria, com sua voz sonora e grave.

 

Ontem,

Eu teria abraçado você e desejado muitos anos de vida.

E teria dormido feliz.

 

(25 abril 2008)



Escrito por Kli às 18h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Aquele que me via

não existe mais.

Agora, sou invisível:

sou ninguém.



Escrito por Kli às 19h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


F I M

                                                             

(Nossa última foto juntos. Novembro 2007.)                          Fevereiro 2007

Não sei quando vou conseguir escrever alguma coisa sobre esse homem que me deu o seu amor total e incondicional durante os 30 anos em que nos conhecemos e os 27 em que vivemos juntos. A dor é muito grande. Não cabe em palavras. Pelo menos, nas minhas. Todas as palavras sumiram diante dessa ausência que dói mais a cada dia.

Então, vou colocar aqui as palavras lidas no sepultamento por um dos seus colegas e amigos, o Dr. Homero Mafra, advogado em Vitória, Espírito Santo. Não pedi sua autorização, mas, como esse texto foi publicado no jornal Tribuna, de Vitória, acredito que ele não se importe por eu reproduzi-lo novamente aqui. O texto, pela beleza e sinceridade, mostra o sentimento de perda de um amigo, mas também fala um pouco do muito que foi Ivanildo Monteiro de Araújo como chefe, amigo, homem e, acima de tudo, como ser humano generoso e especial.

Com ele, acabaram os anos felizes da minha vida.

Pra ele, meu amor eterno.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

           PARA IVANILDO MONTEIRO

 

                        Homero Junger Mafra

           

            A gente vai envelhecendo e a estação de perdas aumenta cada vez mais.

Madrugada em Recife e acabo de receber a notícia: morreu Ivanildo Monteiro.

Quem é de Vitória, provavelmente não conheça, não saiba quem é. Não tiveram, como eu, o privilégio de conviver com esse exemplo de ser humano e advogado.

            Ivanildo trazia com ele uma enorme cultura e um conhecimento que poucos tinham sobre o ser humano. Chefe de um Departamento Jurídico, sabia extrair de cada um o melhor, corrigia os equívocos, atuava em equipe. Dividia os méritos, mesmo quando alguns eram só dele. Era a discrição em pessoa, como que tentando esconder o quanto era grande.

            Quantas coisas aprendi; quantas lições de vida (e de Direito) recebi de meu “Chefe”. Quando eu saía de Vitória para Recife, vinha receber sabedoria.

Os cafés da manhã no Atlante Plaza se estendiam em conversas que entravam manhã adentro. E eu ali, saboreando...    É madrugada em Recife. “Madrugada camponesa”, como um dia cantou um poeta. "Madrugada camponesa, faz escuro mas eu canto.”

            |Madrugada camponesa para o meu amigo de Caruaru, que amava os campos da cana, as coisas da cultura do povo e conhecia música clássica e Direito (muito!!!).

            Nessa madrugada, acordado, doído, canto. Um canto perdido, de dor, de tristeza, de saudade, e acabo escrevendo para deixar correr alguma coisa que eu nem sabia que trazia dentro de mim.

            Ivanildo foi especial. Era um professor, ele que deu aulas em Goiana, cidade perto de Recife, Formou uma rede de amigos. “Chefe”, era como eu o chamava. “Mestre”, o chamavam outros, advogados das empresas do que é conhecido como “Grupo João Santos”. De certa forma, era a rede para os que viviam no trapézio.

            A notícia me pegou em Recife.

            Estranhas essas coisas do destino. Eu estou aqui em Recife e a notícia me chega  no celular que deixei ligado, querendo que não tocasse, mas sabendo que algumas coisas são inevitáveis. Tocou o celular, era Paulo, filho do meu “Chefe”, e eu sabia que era o que não queria ouvir.

            Escrevo, tateando as letras do teclado, sem saber o que escrever. Mas é preciso homenagear os grandes, é preciso que os homens saibam que existem outros homens no mundo que são bons e justos e que distribuem bondade e justiça.

            Não era essa a hora. Não era para ser essa a hora. Mas a hora é a hora que se faz e para as coisas inexoráveis não há hora. Elas acontecem, inevitavelmente. Acontecem e deixam uma marca, uma saudade, uma tristeza.

            Acostumado com as palavras, sinto que elas pingam, como as lágrimas que nem sei mais chorar. Com as palavras pingando, gota a gota, como goteja a saudade, vou tentando dizer alguma coisa.

            Qual a razão de escrever, quando tudo o que eu gostaria de fazer era sair gritando que estamos todos mais pobres, que o mundo está mais pobre, que o meu mundo traz hoje um imenso vazio?

            Nós, humanos, somos parcos em externar nossos carinhos, nossos afetos.

            Muitas vezes não dizemos tudo o que deveríamos dizer àqueles que aprendemos a amar,  àqueles que nos chegaram pela vida e que nos fizeram melhores.

            Não conheci o som dos bacamarteiros de Caruaru, que Dr. Ivanildo sempre gostou tanto e descrevia pra mim, quando falava do São João de sua terra. Nunca ouvi o som dos bacamarteiros. Mas sei que se um dia escuta-los, será sempre com o som da saudade. E certamente nunca mais será o mesmo som que ele descrevia com paixão e que um dia eu pensava em ouvir.

            Agora, “Chefe”, eu sei a razão de escrever. Escrevo para dizer de minha saudade, de minha admiração. Agora sei por que escrevo: para dizer para que em Recife viveu um homem de Caruaru, digno como poucos, humano como poucos, sábio como poucos.

            E que se foi numa madrugada quiçá camponesa, certamente universal.

 

(Recife, 01.02.2008) – Publicado na “Tribuna” de Vitória do Espírito Santo.  Dr. Homero Mafra é advogado criminalista.

 



Escrito por Kli às 13h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


AMIGAS

Queridas amigas que ainda visitam esse espaço, quero pedir que orem por mim, para que eu tenha serenidade e forças para atravessar esse momento tão difícil em minha vida. Meu marido, a quem amo muito, está com câncer e seu estado não é inicial. Fez duas sessões de quimio e está muito debilitado. Estou sem chão. Espero a misericórdia de Deus, porque não posso imaginar minha vida sem ele.

Agradeço desde já se puderem pedir a Deus por nós.

Bjo,

Kli



Escrito por Kli às 12h56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


DOM PEDRO II OU DEODORO?

 

 

 

Nesta semana do feriado republicano, quem deve ser lembrado como o grande personagem desse evento? Deodoro, que sempre se beneficiou da amizade do imperador e que o tranquilizou quando o golpe parecia iminente, garantindo-lhe que tudo estava bem e que o monarca não corria riscos? Ou o sereno imperador que primava pela conduta ética e pelo modo sóbrio com que vivia e fazia com que toda a sua família vivesse; o homem que economizava o dinheiro de sua dotação e que pagava do bolso suas viagens e despesas pessoais, quando poderia simplesmente encaminhar suas contas ao Senado como despesas extras; o imperador que se recusava terminantemente a tomar atitudes autoritárias e repressivas contra a imprensa e que garantia a mais ampla liberdade de expressão, mesmo quando era ele o alvo de charges que o ridicularizavam?

Dom Pedro II, quando lhe falaram que se armava um golpe contra seu governo e a monarquia, apenas disse que "se não me querem como imperador, serei professor". No fundo, esse era seu desejo mais íntimo: ensinar. Transmitir o que aprendera em anos de estudo solitário e de experiência pessoal. Nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser escorraçado do país que amava acima de tudo, no meio da noite, escondido do povo (temiam os militares que o povo o aclamasse e impedisse sua partida?), jogado num velho navio sem conforto, com sua filha, genro e netos, além da esposa doente que morreria menos de um mês depois de chegar ao exílio em Paris.

"Não sou um fugido", teria dito o imperador, inconformado com a indignidade do tratamento que lhe dispensavam. No entanto, conformou-se em partir às escondidas, com medo do derramamento de sangue que sua resistência poderia provocar.

A Veja desta semana faz justiça a esse homem a quem admiro desde a infância. Comecei a ler sobre ele quando, garota, ganhei um livro com a biografia da Princesa Isabel e me encantei ao ver um imperador austero ceder ao pedido de suas jovens filhas para que ele concordasse em trocar seus respectivos pretendentes. Isso, num tempo em que os pais, mesmo não sendo imperadores, impunham sua vontade às filhas, sem sequer cogitar em ouvi-las sobre sua própria vida afetiva. Ele concordou com a vontade das filhas e fez a troca: Isabel casou com o que seria destinado a sua irmã (o Conde D'Eu) e Leopoldina casou com o irmão do conde, que estava destinado à irmã mais velha. Ambas amaram seus maridos enquanto viveram e há inúmeras cartas que comprovam isso.

Enfim, não sou monarquista, claro, mas não acho entusiasmante o que se seguiu à Monarquia no Brasil: golpes, ditaduras, corrupção e a total falta de compromisso dos dirigentes com a coisa pública. Até chegarmos aos incríveis dias que estamos vivendo nesse momento, no Brasil.



Escrito por Kli às 15h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




                   

"UNA FURTIVA LACRIMA"

 

            Estou  muito  muito  triste.                      

 

http://youtube.com/watch?v=ONUCPKdGcrk&mode=related&search=   Ninguém cantou essa ária como ele.



Escrito por Kli às 17h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


1975. Os quatro alunos de Psicologia da UNICAP faziam um trabalho sobre João Cabral de Mello Neto para a cadeira de Português. Para dar um toque a mais no trabalho sobre a obra, resolveram tentar conseguir uma entrevista com um irmão do poeta, que dirigia uma financeira no centro da cidade. Com a cara e a coragem que só os jovens têm, partiram para o escritório do possível entrevistado, numa manhã de sábado, sem sequer saber se ele estaria lá. A secretária ficou surpresa com a visita inesperada e mandou que os jovens ‘aguardassem’, prenúncio do longo “chá de cadeira” que viria. Mais de uma hora se passou e o executivo continuava “ocupado” ou “em reunião”.

A sala de espera foi aberta, nesse momento, e entrou um senhor idoso, de cabelos brancos, que perguntou pelo executivo e  recebeu da recepcionista o mesmo comando de “aguardar”, espécie de mantra repetido infinitamente por todas as atendentes e recepcionistas deste vasto mundo.

     O recém-chegado tirou o chapéu panamá branco e sentou no sofá, próximo ao outro, que era ocupado pelos quatro jovens universitários. Era de estatura mediana, branco e corado. Vestia terno azul marinho simples, com camisa branca e gravatinha borboleta. Tinha expressão afável e calma. Olhou os jovens com simpatia e puxou assunto:

 

- “Estão aguardando Fulano?”

 

Um dos jovens respondeu que sim e contou a razão de estarem ali, porque, a julgar pela familiaridade com que o senhor dissera o nome do executivo, quem sabe não seria um velho amigo dele, capaz de abreviar a espera que já era longa.

 

-“Ah, vocês querem saber alguma coisa sobre Joãozinho? Podem falar comigo, sou o pai dele!”

 

Os jovens não esperavam por tamanha sorte. Apresentaram-se, então, dizendo seus nomes. O senhor Luis apertou a mão de todos, com seu sorriso simpático. Durante os próximos vinte ou trinta minutos falou sobre o menino “Joãozinho”, calado e  tímido, que passava horas do dia sentado num dos mourões da porteira do engenho em que nascera, vendo o vai-e-vem de trabalhadores e carros de boi. Contou suas travessuras de menino criado ao ar livre e seu precoce amor aos livros e às palavras escritas. Aos oito ou nove anos, foi morar no Recife, passando sempre fins-de-semana e férias no engenho. Aos domingos, quando o administrador do engenho ia à feira, o menino João lhe dava dinheiro para comprar os livrinhos de cordel, populares no Nordeste. À tarde, ele sentava com os trabalhadores do engenho ao redor e lia vários desses livrinhos para eles.

O senhor Luís só foi interrompido pela secretária avisando que seu filho executivo iria recebê-lo em seguida.

Quanto aos jovens, pedia desculpas, mas, infelizmente, ele não teria tempo de atendê-los. Quem sabe num outro dia.

 

Mas isso não tinha mais importância para eles, supridos pela fala mansa e risonha de Luis Antônio Cabral de Mello, pai do grande poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto.

 



Escrito por Kli às 17h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


SURREALISMO REAL

 

  SURREALISMO REAL

 

 

Nove horas da manhã. Ônibus cheio mas não lotado, um ou outro passageiro de pé. Pessoas que iam ao centro da cidade fazer pagamentos, compras Ou cuidar de algum interesse em uma repartição pública ou banco. Súbito, numa das paradas habituais daquela linha, sobe um elemento que vai logo apontando o 38 para os passageiros.

- Olhaê, isso é um assalto. Vão logo passando dinheiro e celular.

Assustados, os passageiros vão entregando seus pertences ao ladrão que, acostumado ao seu ofício, recolhe tudo rapidamente, enchendo os bolsos.

Manda o motorista parar o ônibus. Vai descendo, para grande alívio dos passageiros. Já no segundo degrau, muda de idéia.

- Ah, ia esquecendo! Hoje é meu aniversário. Todo mundo aí cantando Parabéns pra mim.

Incrédulos, os passageiros entendem que não se trata de brincadeira, porque o 38 continua apontado para todos.

E, superando a humilhação extrema, cantam mesmo “Parabéns pra você, nesta data querida!”

O ladrão ouve, sorrindo, satisfeito.

-É isso aí!

E desce do ônibus calmamente, como se nada tivesse acontecido.

 

A cena surreal não é ficção. Aconteceu mesmo, aqui em Recife, numa das linhas de ônibus de um subúrbio densamente habitado da cidade.



Escrito por Kli às 13h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

                                                          EM QUE SÃO DIFERENTES OS TIRANOS?

 

Pra entender e sentir melhor o que aconteceu no Brasil  com os dois lutadores cubanos que pretendiam deixar seu país, imaginemos a hipótese de serem devolvidos e considerados traidores atletas como os dois Ronaldinhos, por exemplo, que deixaram o futebol brasileiro há anos, para ganhar mais dinheiro no futebol europeu. Ou impedir-se Janeth de participar da NBA feminina, nos Estados Unidos. São inúmeros os casos de atletas brasileiros que procuraram melhores condições de trabalho em outros países.

Nem é preciso ir tão longe. Basta pensar nos milhares de brasileiros que têm saído do país em busca de melhores dias em Portugal, por exemplo.

Seria considerado absurdo tolher esse direito de ir e vir, garantido constitucionalmente.

No entanto, o governo brasileiro, traindo toda a tradição brasileira de solidariedade, resolveu,  às escondidas, num fim de semana, deportar dois atletas que simplesmente pretendiam deixar o “paraíso” de Fidel. A conduta do nosso (des) governo nos envergonha e mancha o país com a inevitável punição que esses dois jovens receberão em Cuba. Em artigo publicado ontem, Fidel Castro garante que os rapazes não serão mortos nem receberão prisão perpétua. Nem mesmo seriam presos, segundo ele: ficariam numa “casa de visita”, eufemismo novo, certamente, para prisão.  Não poderão mais fazer aquilo de que mais gostam: lutar boxe. Em vez disso, prestariam serviços comunitários.

O crime do campeão olímpico GUILLERMO RIGONDEAUX, de 25 anos e do campeão mundial ERISLANDY LARA, de 24 anos,  não foi sequer o de insurgir-se contra o regime tirânico de Fidel. Eles apenas queriam o inimaginável para um cubano em sua terra:  liberdade.

Os mesmos petistas que choraram assistindo ao filme Olga, em que a mulher de Carlos Prestes é deportada para morrer na Alemanha nazista, esses mesmos petistas calam-se vergonhosamente diante do crime praticado agora contra os dois atletas. Em que diferem as duas situações? No caso de Olga, houve tempo, houve defesa, embora pífia, é certo, mas ela teve direito a advogado e a processo. Os dois rapazes não tiveram sequer os 30 dias que lhes confere a lei para apresentarem seu pedido formal de asilo.  Localizados em Araruama, terra da nossa Tetê, onde estavam sendo monitorados, “a pedido de Cuba” (!) foram conduzidos pela PF para um local em que ficaram reclusos até o momento da viagem de volta a Cuba.  Como se estivéssemos em Cuba, e não num país que se diz democrático,  foram impedidos de qualquer contato com a imprensa.

Do México,  usando o habitual cinismo petista, Celso Amorim teve a cara de pau de dizer que os rapazes manifestaram o desejo de voltar a Cuba. Faça-me o favor! Isso já beira o deboche.

Nisso tudo, onde ficaram as Ongs de direitos humanos? Onde ficou o Ministério Público? Onde estava a OAB?

 



Escrito por Kli às 10h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

 

UPGRADE

 

5.4 – esta é minha versão a partir deste mês.

54 anos. Prefiro ver assim, como uma atualização. O sistema é o mesmo, mas numa versão com acréscimos: de paciência, de tranqüilidade, de tolerância, de conhecimento (de peso também, o que se vai fazer?)

Não sou otimista, mas não concordo também com Schoppenhauer:“hoje é mau e amanhã há de ser pior, até chegar o pior de tudo”. Um pouco demais, eu acho, mesmo pra nós, os brasileiros.

Também discordo de eufemismos como “boa idade”. Boa idade é ter vinte e poucos anos, tudo no lugar, infinitas possibilidades pela frente. Agora, alguns sonhos podem ainda se tornar projetos. Podem até mesmo ser concretizados. Mas já não se pode sonhar em ser pianista ou bailarina, por exemplo. Há que ser comedido até nos sonhos. E aproveitar os que já foram realizados, saborear as vitórias, rever conceitos aprendidos com os revezes normais da vida. E, principalmente, aprender sempre. Agora, não só com os mais velhos. Também com os filhos, com os mais jovens. Eles são a lança que a vida atira para o futuro, através de nós, arqueiros de Deus. Pensamento de Gibran Khalil. E assino embaixo.

Me sinto bem com minha idade. Não sei se isso vai durar até que eu me sinta realmente com minha idade, o que ainda não acontece. Meu coração tem vinte e poucos anos.

 Mas eu chego lá!

 



Escrito por Kli às 17h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 UM PIANISTA PERNAMBUCANO

  "Recife, cruel cidade / Águia sangrenta, leão. / Ingrata para os da terra, /

                                                                                   boa para os que não são."

                                                                                                                                                     (Carlos Pena Filho)

 

 “Júlio vai tocar quarta-feira!”

 

Assim minha amada professora de piano, Natércia Câmara me avisava de mais uma visita do seu amigo, o grande pianista pernambucano Júlio Braga.

Eu, muito jovem, aguardava com impaciência a chegada da quarta-feira e então, no início da noite, logo depois do jantar, (jantava-se muito cedo, nesse tempo) ia com minhas irmãs para a casa da minha amiga.

Ele era um homem baixinho, um pouco tímido, de voz baixa e mansa, educado e cortês. Um homem à moda antiga, de pudores e gentilezas com as senhoras.

Difícil imaginá-lo num concerto no Carnegie Hall, nos anos 50 ou na Maison Gaveau, ou mesmo dando aulas na Universidade de Caracas. No entanto, era um concertista extraordinário, capaz de tocar as peças mais áridas como se não fossem tão difíceis.

Durante pelo menos duas horas ele nos maravilhava com sua técnica e sua sensibilidade. Executava o Polichinelo, de Rachmaninoff, o Scherzo de Chopin, com a mesma dedicação e esmero que usaria para platéia maior e mais esclarecida.

Depois, pedíamos que executasse suas próprias peças, o que ele fazia com prazer. Delas, duas fazem parte do meu arquivo de maravilhas: Acalanto e Panis Angelicus, cuja letra em português ele fez diante de nós, com grande simplicidade, perguntando se estava bom.

Bem, este homem tem uma obra de cerca de 160 peças para piano e também para canto, flauta, violino e outros instrumentos. Sua irmã mais moça tem lutado ao longo de toda uma vida para fazer um cd com suas músicas, um registro do acervo que ele deixou ou pelo menos de parte dele. Sucessivos prefeitos de Olinda e Recife ignoraram seus pedidos.  Nem mesmo conseguiu editar suas partituras que, além de tecnicamente perfeitas, são lindas. Permanecem ainda escritas de próprio punho pelo autor, com sua caligrafia musical perfeita, como dá pra perceber na foto.

Por isso, os versos de Carlos Pena Filho no início deste post.  Autores de outros estados ou de outros países conseguem, em Recife, benesses que seus filhos não alcançam.

 

(Fiz uma página pra ele, na Wikipédia)



Escrito por Kli às 17h56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil





BRASIL, Nordeste, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese, Livros, Música, cinema



Meu humor



Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 ELZA - Blog-do-Beagle
 KITH
 BÁRBARA
 Julião Severo
 SILVANIA
 MAGUI
 LELA
 KARLA - Devaneios de Lilith
 Tetê-todos os blogs e flogs
 CRYS - Jardim de Letras
 DRICA (blog novo)
 DORA
 Traduzir-se - LUALIL
 Anucha (blog novo)
 Caíla (Blog Novo) Reflexões Depois dos Trinta
 Mar da Poesia - JEANETE RUARO
 Querido leitor (Rosana Hermann)
 Marcelo Tas - Blog do Tas
 RUBO MEDINA
 Moriana
 Caíla- (Blog antigo) Reflexões depois dos 30
 Blog da Giselda
 CRIS
 ANUCHA
 Versos Soltos
 Comunidade do Blog
 Projeto Releituras (Muito bom!)
 Escrevinhações
 Drica - Blog antigo -Pudores e despudores
 Marici
 O livro de Próspero
 Sonhos e Ternura - Poesia
 Verso e Verbo
 Lúcia - Algo Diferente