DOM PEDRO II OU DEODORO?

Nesta semana do feriado republicano, quem deve ser lembrado como o grande personagem desse evento? Deodoro, que sempre se beneficiou da amizade do imperador e que o tranquilizou quando o golpe parecia iminente, garantindo-lhe que tudo estava bem e que o monarca não corria riscos? Ou o sereno imperador que primava pela conduta ética e pelo modo sóbrio com que vivia e fazia com que toda a sua família vivesse; o homem que economizava o dinheiro de sua dotação e que pagava do bolso suas viagens e despesas pessoais, quando poderia simplesmente encaminhar suas contas ao Senado como despesas extras; o imperador que se recusava terminantemente a tomar atitudes autoritárias e repressivas contra a imprensa e que garantia a mais ampla liberdade de expressão, mesmo quando era ele o alvo de charges que o ridicularizavam?
Dom Pedro II, quando lhe falaram que se armava um golpe contra seu governo e a monarquia, apenas disse que "se não me querem como imperador, serei professor". No fundo, esse era seu desejo mais íntimo: ensinar. Transmitir o que aprendera em anos de estudo solitário e de experiência pessoal. Nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser escorraçado do país que amava acima de tudo, no meio da noite, escondido do povo (temiam os militares que o povo o aclamasse e impedisse sua partida?), jogado num velho navio sem conforto, com sua filha, genro e netos, além da esposa doente que morreria menos de um mês depois de chegar ao exílio em Paris.
"Não sou um fugido", teria dito o imperador, inconformado com a indignidade do tratamento que lhe dispensavam. No entanto, conformou-se em partir às escondidas, com medo do derramamento de sangue que sua resistência poderia provocar.
A Veja desta semana faz justiça a esse homem a quem admiro desde a infância. Comecei a ler sobre ele quando, garota, ganhei um livro com a biografia da Princesa Isabel e me encantei ao ver um imperador austero ceder ao pedido de suas jovens filhas para que ele concordasse em trocar seus respectivos pretendentes. Isso, num tempo em que os pais, mesmo não sendo imperadores, impunham sua vontade às filhas, sem sequer cogitar em ouvi-las sobre sua própria vida afetiva. Ele concordou com a vontade das filhas e fez a troca: Isabel casou com o que seria destinado a sua irmã (o Conde D'Eu) e Leopoldina casou com o irmão do conde, que estava destinado à irmã mais velha. Ambas amaram seus maridos enquanto viveram e há inúmeras cartas que comprovam isso.
Enfim, não sou monarquista, claro, mas não acho entusiasmante o que se seguiu à Monarquia no Brasil: golpes, ditaduras, corrupção e a total falta de compromisso dos dirigentes com a coisa pública. Até chegarmos aos incríveis dias que estamos vivendo nesse momento, no Brasil.
Escrito por Kli às 15h15
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