TEMPUS FUGIT


F I M

                                                             

(Nossa última foto juntos. Novembro 2007.)                          Fevereiro 2007

Não sei quando vou conseguir escrever alguma coisa sobre esse homem que me deu o seu amor total e incondicional durante os 30 anos em que nos conhecemos e os 27 em que vivemos juntos. A dor é muito grande. Não cabe em palavras. Pelo menos, nas minhas. Todas as palavras sumiram diante dessa ausência que dói mais a cada dia.

Então, vou colocar aqui as palavras lidas no sepultamento por um dos seus colegas e amigos, o Dr. Homero Mafra, advogado em Vitória, Espírito Santo. Não pedi sua autorização, mas, como esse texto foi publicado no jornal Tribuna, de Vitória, acredito que ele não se importe por eu reproduzi-lo novamente aqui. O texto, pela beleza e sinceridade, mostra o sentimento de perda de um amigo, mas também fala um pouco do muito que foi Ivanildo Monteiro de Araújo como chefe, amigo, homem e, acima de tudo, como ser humano generoso e especial.

Com ele, acabaram os anos felizes da minha vida.

Pra ele, meu amor eterno.

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           PARA IVANILDO MONTEIRO

 

                        Homero Junger Mafra

           

            A gente vai envelhecendo e a estação de perdas aumenta cada vez mais.

Madrugada em Recife e acabo de receber a notícia: morreu Ivanildo Monteiro.

Quem é de Vitória, provavelmente não conheça, não saiba quem é. Não tiveram, como eu, o privilégio de conviver com esse exemplo de ser humano e advogado.

            Ivanildo trazia com ele uma enorme cultura e um conhecimento que poucos tinham sobre o ser humano. Chefe de um Departamento Jurídico, sabia extrair de cada um o melhor, corrigia os equívocos, atuava em equipe. Dividia os méritos, mesmo quando alguns eram só dele. Era a discrição em pessoa, como que tentando esconder o quanto era grande.

            Quantas coisas aprendi; quantas lições de vida (e de Direito) recebi de meu “Chefe”. Quando eu saía de Vitória para Recife, vinha receber sabedoria.

Os cafés da manhã no Atlante Plaza se estendiam em conversas que entravam manhã adentro. E eu ali, saboreando...    É madrugada em Recife. “Madrugada camponesa”, como um dia cantou um poeta. "Madrugada camponesa, faz escuro mas eu canto.”

            |Madrugada camponesa para o meu amigo de Caruaru, que amava os campos da cana, as coisas da cultura do povo e conhecia música clássica e Direito (muito!!!).

            Nessa madrugada, acordado, doído, canto. Um canto perdido, de dor, de tristeza, de saudade, e acabo escrevendo para deixar correr alguma coisa que eu nem sabia que trazia dentro de mim.

            Ivanildo foi especial. Era um professor, ele que deu aulas em Goiana, cidade perto de Recife, Formou uma rede de amigos. “Chefe”, era como eu o chamava. “Mestre”, o chamavam outros, advogados das empresas do que é conhecido como “Grupo João Santos”. De certa forma, era a rede para os que viviam no trapézio.

            A notícia me pegou em Recife.

            Estranhas essas coisas do destino. Eu estou aqui em Recife e a notícia me chega  no celular que deixei ligado, querendo que não tocasse, mas sabendo que algumas coisas são inevitáveis. Tocou o celular, era Paulo, filho do meu “Chefe”, e eu sabia que era o que não queria ouvir.

            Escrevo, tateando as letras do teclado, sem saber o que escrever. Mas é preciso homenagear os grandes, é preciso que os homens saibam que existem outros homens no mundo que são bons e justos e que distribuem bondade e justiça.

            Não era essa a hora. Não era para ser essa a hora. Mas a hora é a hora que se faz e para as coisas inexoráveis não há hora. Elas acontecem, inevitavelmente. Acontecem e deixam uma marca, uma saudade, uma tristeza.

            Acostumado com as palavras, sinto que elas pingam, como as lágrimas que nem sei mais chorar. Com as palavras pingando, gota a gota, como goteja a saudade, vou tentando dizer alguma coisa.

            Qual a razão de escrever, quando tudo o que eu gostaria de fazer era sair gritando que estamos todos mais pobres, que o mundo está mais pobre, que o meu mundo traz hoje um imenso vazio?

            Nós, humanos, somos parcos em externar nossos carinhos, nossos afetos.

            Muitas vezes não dizemos tudo o que deveríamos dizer àqueles que aprendemos a amar,  àqueles que nos chegaram pela vida e que nos fizeram melhores.

            Não conheci o som dos bacamarteiros de Caruaru, que Dr. Ivanildo sempre gostou tanto e descrevia pra mim, quando falava do São João de sua terra. Nunca ouvi o som dos bacamarteiros. Mas sei que se um dia escuta-los, será sempre com o som da saudade. E certamente nunca mais será o mesmo som que ele descrevia com paixão e que um dia eu pensava em ouvir.

            Agora, “Chefe”, eu sei a razão de escrever. Escrevo para dizer de minha saudade, de minha admiração. Agora sei por que escrevo: para dizer para que em Recife viveu um homem de Caruaru, digno como poucos, humano como poucos, sábio como poucos.

            E que se foi numa madrugada quiçá camponesa, certamente universal.

 

(Recife, 01.02.2008) – Publicado na “Tribuna” de Vitória do Espírito Santo.  Dr. Homero Mafra é advogado criminalista.

 



Escrito por Kli às 13h48
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